Estudo aponta avanço acelerado da obesidade na saúde suplementar e pressiona setor

26 de fevereiro de 2026

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

A obesidade deixou de ocupar posição periférica para se tornar um vetor estrutural de pressão assistencial na saúde suplementar brasileira.

É o que revela o Texto para Discussão nº 117 – 2026, intitulado “Evolução dos registros de obesidade e da utilização de consultas nutricionais na saúde suplementar no Brasil: análise de 2015 a 2024”, elaborado com base em dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Crescimento acelerado após 2020

As taxas de eventos assistenciais cujo CID principal corresponde à obesidade cresceram ao longo de toda a série histórica. A aceleração ocorre a partir de 2020.

Entre mulheres, a taxa passou de aproximadamente 55 para 128 eventos por 100 mil beneficiárias entre 2015 e 2024 — aumento acumulado de 132%.

Entre homens, o crescimento foi de 24 para 36 por 100 mil beneficiários (47%).

A maior carga assistencial concentra-se nos adultos de 20 a 59 anos — faixa economicamente ativa.

O estudo sugere ainda que a pandemia de Covid-19 funcionou como catalisador de tendências já existentes, agravando padrões alimentares inadequados, sedentarismo e fatores emocionais associados ao ganho de peso.

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Explosão nas consultas nutricionais

Se os registros de obesidade cresceram, as consultas com nutricionistas avançaram em ritmo muito superior.

Entre 2015 e 2024:

  • Mulheres: de 304 para 7.465 consultas por 100 mil beneficiárias (+2.359%)
  • Homens: de 149 para 3.667 por 100 mil (+2.361%)

O crescimento ocorre em todas as faixas etárias, com destaque novamente para adultos de 20 a 59 anos.

Parte dessa expansão pode estar associada à decisão regulatória da ANS, em 2022, que autorizou número ilimitado de consultas com nutricionistas na saúde suplementar.

GLP-1 e o novo dilema financeiro

O estudo dedica atenção especial aos agonistas do receptor de GLP-1.

Esses medicamentos foram inicialmente indicados para diabetes tipo 2, mas demonstraram eficácia relevante na perda de peso.

Ensaios clínicos publicados no New England Journal of Medicine mostraram reduções superiores a 10–15% do peso corporal com moléculas como a semaglutida.

Mais recentemente, revisão sistemática publicada no BMJ (2026) confirmou um ponto crítico: há reganho significativo de peso após a interrupção do tratamento.

Pressão direta sobre a sinistralidade

Três fatores passam a atuar simultaneamente:

  • Aumento da prevalência e dos registros assistenciais
  • Expansão do uso de serviços multiprofissionais
  • Incorporação de terapias de alto custo

A combinação tende a elevar a sinistralidade e pressionar reajustes, especialmente em planos coletivos empresariais.

A obesidade passa a ocupar posição semelhante à de outras condições crônicas estruturantes, como diabetes e doenças cardiovasculares.

O que muda para a gestão de saúde

O estudo aponta direções estratégicas claras.

  1. Gestão orientada por dados
    Uso sistemático de bases assistenciais para identificar grupos de risco, padrões de utilização e efetividade das intervenções.
  2. Modelos integrados de cuidado
    Integração entre nutricionistas, médicos, educadores físicos e suporte em saúde mental, evitando intervenções isoladas.
  3. Avaliação rigorosa de tecnologias
    Análises de custo-efetividade antes da ampliação indiscriminada do acesso a terapias farmacológicas de alto custo.
  4. Monitoramento longitudinal
    Acompanhamento contínuo de desfechos clínicos e financeiros.

Um problema estrutural

A obesidade já é determinante estrutural da demanda na saúde suplementar brasileira. A chamada “virada farmacológica” com os agonistas de GLP-1 amplia alternativas terapêuticas — mas redefine o debate sobre acesso, sustentabilidade e organização do cuidado.

Para gestores, o desafio não é apenas tratar a obesidade. É estruturar modelos assistenciais capazes de sustentar o tratamento no médio e longo prazo.

 

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